Passeio os meus sonhos
Numa rua deserta
Sofro com o sopro do vento
Eu sou em carne viva
Eu sou uma chaga aberta
E usufruo a plenitude
de uma ferida inteira
Tenho receio das fêmeas
E do barulho
Desconfio das festas
E da primavera
Agito-me e repouso
no solo
do meu próprio peito.
Poema© :JoaquimESTEVES
O sol pariu o primeiro raio
Estou cego
por haver tanta luz
Hoje é tarde
Prossigo impulsionado
pelo calor dos bueiros
e pelo sopro das galerias
Sou uma composição química
e moro
nos subúrbios remotos do paraíso
Hoje é tarde
É dia de extirpar o coração
e viver apesar dele
Estou aquém e além dos outros
e não me seduzem mais
as conclusões da plebe
Sedimento os meus sentimentos
e quero tudo
E quem sabe
amanhã de manhãzinha
aguarda-me o estranho silêncio
da minha execução.
Poema© :JoaquimESTEVES
Faço a mesma barba
O mesmo xixi
O mesmo sorriso
O mesmo ih! ih!
Bebo o mesmo café
A mesma lágrima
O mesmo " Pois é"!
Esbofeteia-me o mesmo vento
O mesmo sol
O mesmo tempo
E leio a mesma notícia
No mesmo jornal
Com o mesmo crime
Com a mesma polícia
Paro no mesmo sinal
Na mesma rua
No mesmo mal
E vejo o mesmo Zé
Na mesma esquina
Com o mesmo porre
E encontro a mesma mulher
Sem os mesmos dentes
Sem a mesma mínima
pouca vergonha
Espirro o mesmo atchim
Sofro do mesmo rim
E mesmo assim
É mesmo assim.
Nada é novo
Todos me julgam
E eu não tenho culpa
Estou muito longe do Rio
que me ofereceria
um mergulho Redentor
E muito perto do atalho
da minha decisão
Cedo e me rendo ao silêncio
e à vergonha dos desertores
Detesto as Vitórias
e a fabricação dos Heróis
Fecho os olhos
Tampo os ouvidos
Reduzo o choque
Amorteço a minha Condição
E espero.
Lisboa, 5 de Novembro de 2005
Há cobras nos meus sonhos
e fendas nos meus desejos
Há água na minha boca
e líquidos nos meus anseios
Há vaginas desertas
como oásis secretos
do outro lado dos meus pesadelos
Não quero mais a felicidade
Quero um corpo livre e incompleto
para o meu
Não quero mais a felicidade
Quero a língua viperina
e a boca vermelha
de baton e de ilusão
de todas as mulheres
Não quero mais a felicidade
Quero porque quero
Aberturas e sutilezas
Gritos e procuras
Gemidos e sussuros
e um orgasmo no final.
Naquela única vez
Foi uma fábula - Era uma vez
Foi o acordar da química loca
Foi starry night
No céu da minha boca
Naquela única vez
Fiz música nos teus confins
Fiz um blue céu no teu blue jeans
Fiz de teus seios a batuta
Fui maestro nessa luta
Naquela única vez
Eram precisos olhos castanhos
Fomos iguais fomos estranhos
Foi mais que say grace
Foi bom
Foi face to face
Naquela única vez
Escapou-me o teu nome
Foi a a pressa foi a fome
Não importa
Valeu a pena
Minha doce minha anônima Madalena.
Chovia lá fora
quando saí do botequim
Distanciei-me um pouco
e ouvi passos atrás de mim
Rodei o esqueleto
e me deparei com um homem
que era mais ou menos assim
Era um desses homens formosos
de cabelos azuis
e olho louro atrevido
Não digo olhos
porque o infeliz me parecia surdo
de um olho e não do ouvido
Aliás, diga-se de passagem
era lindo
Parecia um batráquio
com sinais de miopía
nas trompas de eustáquio
Era um desses homens elegantes
Prêt-à-porter
Trajava calças de colarinho cor de urinol
Calçava sapatos de vidro fumê
Era um desses homens másculos viris
Um ferrabrás
que usava batom nas narinas da frente
e soutien nos tubérculos de trás
Era um desses homens magros bem talhados
Uma esbeltez
Com uma papada inchada
que dava pra três
Com uma pança obstétrica
de trigêmia gravidez
Era um desses homens modernos
da geração fitness
Não usava bigode
tinha um beiço top-less
Era uma finesse
da cabeça aos péss
Aqui termino as memórias do meu último porre
Sem saber até hoje o que foi o que eu vi
Não sei se era só o efeito do porre
Ou se era mesmo real
esse homem que eu vi.
Amo tua ptialina, tua saliva cristalina
Amo teu palato, tuas papilas, a tua vitamina
Amo teus ductos, tua seiva, tuas hemáceas
Amo tuas artérias, tua proteína,
tuas veias violáceas
Amo tua penugem, teu púbis sacro
Amo-te sem medidas, amo-te um amor macro
Amo teu óvulo mensal
Amo teu sangue menstrual
Amo todos os átomos
que fazem de ti
uma bomba anatômica.
Os meus olhos pretos
Não são pretos
São duas gotas de escuridão
Nos meus olhos é de noite
E foi por não poder fechá-los
Que um artista das sombras
Gravou neles
toda a história do escurecer
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Os meus olhos pretos
Não são pretos
São os teus na minha cara
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Nos meus olhos é sol nascente
E foi de tanto abri-los
Que uma menina da luz do sol
Derramou neles
a lentidão exata do amanhecer.
Promessas de sol / Sentença de chuva
Acordes de violino / Orquestra de sapos
Saudações do branco / Visitas do amarelo
Traços de vento / Hálito de vendaval
Pegadas do riso / Campos de fogo
Mentiras da espera / Palavras da solidão:
- E tudo não passa de uma demência de verão.
O meu amor é o mais secreto dos segredos
Vive na noite, nas sombras e nos degredos
Paira no nada, nos ermos, nos descampados
Grita nos vales surdos e abandonados
Guarda em lugar amado
O beijo que te dei
sem nunca te haver tocado
Em mim, fica a perpétua saudade
desse minuto que te roubei.
Na busca de uma provisória eternidade
Vasculhamos os frutos podres de cada dia
Sacudimos os ombros das coisas
Esprememos os gomos da vida
Temos ânsia
Temos sede
Temos seca a nossa sorte
E em nome da sede
Nos armamos de paralíticas ilusões
Vamos aos templos
Vamos às guerras
Vamos às bruxas
Vamos às luas
Queremos água
Queremos seiva
Queremos o suco vivo da vida
E apesar da sede
Acreditamos no love for ever
Somos unidos - é a sede que nos une
Somos irmãos - até onde a sede permite
Apesar da sede
Bendizemos essa sede maldita
E quando já estamos acostumados com a sede
Há o erro da células
O descomeço
E o fim da sede.
Faz um tempo inclassificável no Rio
A multidão inundada pela névoa
Parece-me mais clara e menos feia
Os transeuntes
Vestem uma cara serena e pacificada
O tráfego
Ondula num côro exausto e desafinado
O Rio parece um pátio
de loucos convertidos
Foi a neblina que os converteu
Foi esse falso cinzento de setembro
que mandou da atmsofera
a doce ilusão de que tudo vai bem.
Havia uma única estrela no céu
Era hora de voltar
Olhei para trás.
Os caminhos que andei
eram espirais de fumaça
O meu tempo era uma ilha
e a vida não era ali.
Juntei meus restos vitais
Mirei-me no espelho d'água
Assustei-me
e fugi de mim.
Escolho o passo mais firme
Para a estrada mais reta
Sonho o sonho mais rosa
Para a meta mais certa
O mundo é geométrico
A vida é uma fórmula
Viver é ousar no trapézio
e evitar as perpendiculares
O prazer é um ângulo oblíquo
A esperança, uma paralela infinita
E a felicidade, um teorema
Andar é preciso
Chegar é vital
Achar é fundamental
Mas eis que se foi o meu tempo
das retas
Foi de tanto andar
Que se curvaram as retas
Que se fecharam os círculos.